Psicóloga Patrícia Rangel fala sobre relações familiares difíceis e como a terapia pode ajudar mulheres a ressignificar sua história

Que família é essa que eu tenho? O que fazer quando a sua família de origem foi um lugar de dor

Por Patrícia Rangel | Relações Familiares


Existe uma pergunta que surge silenciosamente na vida de muitas mulheres e que, apesar de tão comum, ainda incomoda quando é dita em voz alta: “Que família é essa que eu tenho?”

Falar sobre isso ainda é difícil. Existe uma idealização muito forte da família na nossa cultura, uma expectativa de que esse deveria ser o espaço mais seguro da nossa vida um lugar de descanso, de paz, de acolhimento. E quando a realidade foi o oposto disso, reconhecer essa verdade dói de um jeito muito particular. É difícil de explicar, difícil de digerir, difícil até de pensar, porque toca em algo muito sensível e profundo.

Mas é justamente sobre isso que eu quero conversar com você hoje.


Quando a dor vem de dentro de casa

Ao longo da minha prática clínica, acompanho mulheres que, além de terem vivido uma relação muito difícil e conturbada com a própria mãe atravessada por ressentimentos, mágoas e uma série de outros sentimentos complexos, também tiveram que enfrentar outras dores dentro de casa: um pai ausente, um pai omisso, um irmão agressivo, sequências de invalidações e humilhações que deixaram marcas profundas.

Essas situações trouxeram danos reais para a vida dessas mulheres. Danos que muitas vezes são difíceis de nomear, porque a sociedade insiste em nos dizer que família é sagrada, que é preciso perdoar, que “no fundo eles te amam.” E essa pressão silencia a dor em vez de acolhê-la.

O que eu vejo constantemente são mulheres que, apesar de terem construído ao longo da vida grandes amizades, relações saudáveis e vínculos sustentáveis com outras pessoas, ainda convivem com uma solidão que é difícil de explicar. Uma solidão que vem de um lugar específico: a família de origem.


O dilema que ninguém fala

Há um dilema que acompanha quase todas as mulheres que chegam até mim com esse tipo de história.

De um lado, elas se perguntam: “Até que ponto consigo sustentar essa relação?” Até onde dá para continuar mantendo um vínculo que, tantas vezes, custa caro demais em energia, em saúde mental, em estabilidade emocional?

De outro, a família de origem pode ter sido justamente o lugar onde elas mais se sentiram invalidadas, desamparadas, sem espaço de voz. Onde não eram escutadas. Onde não se sentiam pertencentes.

E olhar para isso é muito difícil. Porque reconhecer que a sua família foi o contrário do que deveria ser em vez de um porto seguro, um lugar de tempestade exige uma coragem enorme. Exige que você enfrente uma verdade que, durante anos, talvez tenha sido enterrada embaixo da culpa, da obrigação ou da esperança de que as coisas mudem.

Eu sei que abordar esse assunto é complicado. Eu sei que é difícil pensar nessas questões.


Olhar para isso não significa que você não ama a sua família

Mas eu quero te dizer algo importante: começar a olhar para essa dor não significa que você não ama a sua família.

Significa, talvez pela primeira vez na vida, que você vai começar a olhar para a sua própria história com mais honestidade. Reconhecer o que de fato você viveu sem minimizar, sem justificar, sem diminuir o impacto que essas experiências tiveram em quem você é hoje.

Isso não é abandono. Isso não é ingratidão. Isso é cuidado. É o primeiro passo para que você deixe de carregar sozinha algo que nunca deveria ter sido seu.


Por que é tão difícil falar sobre relações familiares dolorosas?

Porque a família carrega um peso simbólico enorme. Desde pequenas, somos ensinadas que amar a família é incondicional e esse ensinamento, quando a família nos machuca, se transforma em uma armadilha silenciosa. A gente aprende a duvidar da própria dor. A minimizar. A se perguntar se não está “exagerando.”

Não está.

A dor que vem de dentro de casa é uma das mais complexas de trabalhar justamente porque atinge as camadas mais profundas da nossa identidade. É na família que aprendemos a nos ver, a nos relacionar, a entender o que merecemos. Quando esse ambiente foi marcado por críticas, ausências ou violências mesmo as sutis —, esses ensinamentos também ficam.

E eles continuam operando na vida adulta, muitas vezes de formas que a gente nem percebe.


A terapia como espaço para revisitar a sua história

Trabalhar essas questões em terapia não é sobre condenar a família. Não é sobre alimentar mágoas ou construir um relato de vítima. É sobre olhar para a sua história com cuidado e honestidade entender o que aconteceu, como isso te afetou, e o que você quer fazer com isso daqui pra frente.

É criar, talvez pela primeira vez, um espaço onde a sua dor é real, onde a sua história é levada a sério, onde você não precisa minimizar o que viveu para proteger a imagem de quem te machucou.

Muitas mulheres chegam ao processo terapêutico carregando uma culpa enorme por simplesmente sentir o que sentem. Uma das coisas mais transformadoras que acontece ao longo da terapia é perceber que sentir dor em relação à família não te faz uma filha ruim, uma pessoa ingrata ou alguém que não sabe amar.

Te faz humana.


Se você se reconhece nesse texto

Se enquanto você lia, alguma coisa dentro de você foi se movendo se alguma parte da sua história apareceu aqui saiba que você não está sozinha.

Esse é um caminho que muitas mulheres estão percorrendo. E existe um espaço seguro para que você também possa percorrê-lo, no seu ritmo, com o suporte de quem entende a complexidade dessas relações.

Se quiser conversar sobre o que está vivendo, estou aqui.


Psicóloga Patrícia Rangel Especialista em relações familiares e desenvolvimento emocional feminino. Agendar uma conversa


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